terça-feira, 26 outubro de 2021
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Professor da rede pública do DF luta por uma educação antirracista

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Professor de história da rede pública de ensino do Distrito Federal, Maurício Borges é um ativista político comprometido com a luta por um mundo mais justo e com igualdade racial

 (crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
(crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

“Salve, quebrada! Mas quem salva a quebrada?” A indagação é do professor, pesquisador, arte-educador, poeta, escritor e ativista Maurício Borges, 33 anos. A frase compõe o início do poema Lírica Bereta, publicado no livro Poesia nas Quebradas: Poesia marginal e literatura periférica, organizado por Ravena Carmo. Mas, o questionamento entorna das páginas do livro e entra na sala de aula, onde o professor de história faz questão de trazer uma abordagem antirracista para o conteúdo.

“A gente tem uma narrativa que constrói o conhecimento científico centrado em três sujeitos principais: um sujeito branco, europeu e homem heterossexual. A história do Brasil costuma ser contada a partir desta perspectiva. A minha tarefa para construir essa educação antirrascista é deslocar o conhecimento, mostrar que não são só eles que produzem conhecimentos. É necessário trazer outras vozes que foram silenciadas: negros, mulheres e pessoas LGBTQ+”, avalia o educador.

Para ele, uma educação antirracista é o caminho natural para um engajamento político, ferramenta para a transformação social. Maurício é membro atuante do Movimento Negro, participando de manifestações, rodas de conversas, oficinas e projetos culturais, principalmente na sua cidade, Planaltina.

Ele nasceu e morou a maior parte da sua vida na região, assim como toda a sua família. Criado pela mãe, junto aos dois irmãos, Maurício é o primeiro de sua família a concluir o ensino superior. Neto de empregada doméstica — “Minha avó era empregada doméstica do tipo que deixa de criar os próprios filhos para criar os filhos da patroa” —, sua mãe foi a primeira a quebrar o ciclo da pobreza em sua família, ao tornar-se policial. Contudo, a origem humilde e a negritude fizeram da família inteira ativistas políticos.

Professor da Secretaria de Educação do Distrito Federal desde 2017, ele leciona atualmente no Centro Educacional Vale do Amanhecer, onde a maioria dos estudantes é de jovens negros e periféricos, que são submetidos a muitas violências impostas pelo racismo.

Atuação

Maurício formou-se em história na Universidade Estadual de Goiás (UEG) de Formosa, em 2012. Em 2016, concluiu o mestrado na Universidade Federal de Goiás (UFG) — quando morou por dois anos em Goiânia. Na pós-graduação, estudou questões raciais ligadas à intolerância religiosa envolvendo religiões de matriz africana. Mais do que estudar as religiões, o pesquisador analisou a ancestralidade e as conexões da crença com a sociedade atual para além da espiritualidade como, por exemplo, por hábitos alimentares.

Ele é também um dos pesquisadores do Inventário Nacional de Referências Culturais de Terreiros no Distrito Federal e Entorno, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Maurício relata ter frequentado com muita intensidade terreiros de candomblé de Planaltina por mais de 10 anos, mas acabou se afastando das atividades devido à grande demanda da crença. Contudo, continua se classificando como devoto do culto e relata o grande impacto que a religião teve em sua vida.

“Foi nesses espaços que pude colher o legado civilizatório dos povos que vieram do continente africano e pude inspirar minhas pesquisas. Além disso, conheci a pedagogia ubuntu, em que a gente tenta construir uma educação mais horizontalizada. Tudo isso vem do modo de viver e ser africano, logo, ser negro no Brasil”, destaca.

Neste ano, durante a pandemia, ele começou a participar de um projeto da Universidade de Brasília (UnB) que visa a formação de professores antirracistas por meio do compartilhamento de experiências. Trata-se do Conselho Científico das Disciplinas Ensino de História, criado pela professora Ana Flávia Magalhães Pinto.
“É muito difícil trabalhar essas questões na sala de aula por vários motivos. Primeiro, a gente encontra uma resistência muito grande. A própria estrutura da escola está imbricada do racismo estrutural, e é muito importante que a gente compartilhe essas experiências para que eles se instrumentalizem para trabalhar a história, o conteúdo programático da história a partir de um recorte antirracista, antisexista e anti LGBTofóbico”, explica.

Outra importante atividade de transformação social praticada pelo educador é por meio da cultura. Ele é um dos fundadores da Casa Verde Jardim Cultural, um espaço destinado a manifestações culturais como teatro, exposições, dança, performances, música autoral e experimental. Formado essencialmente por pessoas negras, o projeto é um meio de resistência, empoderamento e transformação da comunidade local.
“Nós somos a casa de cultura no DF que mais realizou atividade no ano de 2017, segundo a Secretaria de Cultural, voltadas para as questões de raça, gênero e orientação sexual”, define o produtor cultural.

Caminho

Mesmo superando adversidades, Maurício relata ter sofrido diversas violências decorrentes do racismo durante sua vida. A que mais o marcou foi quando ele passou no concurso de professor substituto da UFG e, ao entrar na fila para assumir a vaga, um funcionário o disse que ele deveria se dirigir à fila dos servidores técnicos. Contudo, ele afirma, também, ter sofrido inúmeras agressões físicas, principalmente de policiais, sem razão nenhuma.

“Essas experiências vão moldando a gente, engrossando a casca. Nós lutamos cada vez com intensidade para que as pessoas não passem mais por isso. É preciso que a gente eduque para que os jovens tenham a percepção dessa violência que sofrem e possam denunciar”, afirma o professor.

O caminho, ele afirma, é uma educação antirracista que desperta consciência, instrumentos de ação, autoestima e empatia, também, para com as dores do outro. “A consciência negra é a consciência política do sujeito que você é no mundo, e a educação antirracista está a serviço de você se entender no mundo. Quando você passa a perceber o outro, você tem mais empatia com as demandas. Quando você reconhece o preconceito que você próprio tem, há mais sensibilidade para reconhecer o preconceito do outro. Educar de maneira antirracista é formar sujeitos políticos antirracistas.”

“A consciência negra é a consciência política do sujeito que você é no mundo,
e a educação antirracista está a serviço de você se entender no mundo”

 

Informações Correio Braziliense

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